Prefácio Vigor Mortis 1 por Paulo Biscaia

Olho para cima e vejo um ícone de avião, e uma linha tracejada vermelha mostra que em breve sobrevoaremos Bogotá.

Não.

Preciso começar antes. Bem antes.

Era um outro voo. 1995.

Eu estava no Boeing da Varig voltando para o Brasil depois de concluir o mestrado na Royal Holloway University of London. Por todo o ano letivo anterior, meus colegas zombavam – ainda que de forma respeitosa – do tema da minha pesquisa: Grand Guignol, o teatro de horror de Paris.

Falar sobre mutilações e decapitações não parecia ser nem muito acadêmico nem mesmo muito teatral.

Não me importei um segundo com as zombarias. Ao contrário, caros rapazes.

Comecei em 1996 minha carreira no corpo docente da Faculdade de Artes do Paraná. Lugar que serviu de panela de pressão para criar a Cia. Vigor Mortis junto com colegas do corpo discente.

1997. Estreamos PeeP, uma peça sobre serial killers com ares pretensiosos de vanguarda. Necessária, mas artisticamente mentirosa.

Eu queria fazer algo que ecoasse o que eu senti lendo The Dark Knight Returns (Batman – O Cavaleiro das Trevas), de Frank Milker, ou vendo Evil Dead (A Morte do Demônio), de Sam Raimi. Levei outros sete anos para conseguir fazer isso de verdade.

 

A aeromoça disse para apertar o cinto, pois vamos passar por uma área de turbulência. O vento de proa é de 18 km/h. O que quer que isso queira dizer. 

 

Morgue Story – Sangue, Baiacu e Quadrinhos estreou no Espaço Dois em Curitiba e foi a primeira coisa 100% verdadeira que eu disse em minha vida como autor e diretor de teatro. Juntei em uma peça tudo o que eu gostava: zumbis, cultura pop trash, cinema, sangue e… quadrinhos. Quem se responsabilizou por essa parte foi um empolgante artista de HQs que conheci nos corredores da FAP tocando o tema de Smallville no violão. Um sujeito com os melhores passos de dança na pista que já vi, e que atende pela alcunha de DW. Pois é. Esse cara foi o criador do visual de Oswald, o personagem da quadrinista Ana Argento, protagonista de Morgue Story.

Durante aquela primeira temporada, centenas e centenas de dóceis psicopatas como eu passaram pela plateia do Espaço Dois. Um deles era outro egresso do curso de Artes Visuais da FAP e professor de quadrinhos do DW. Esse outro meliante do nanquim me manda um email confessando sua conivência com o que Morgue Story era e, como agravante, comete a pachorra de discordar de mim ao dizer que Duro de Matar 2 era uma bosta. Esse celerado, que faz par perfeito com a Sra. Fernanda, costuma assinar como José Aguiar.

 

Passamos por cima da Cordilheira dos Andes e agora sobrevoamos Medellín. 

 

Em 2006, com o sinalverde para mais uma produção, nós da equipe da Vigor Mortis (na época eu, o Leandro Daniel Colombo, a Carolina Fauquemont, a Rafaella Marques e o Guilherme Sant’ana) viramos alunos de desenho do DW. Era o período de pesquisa para a construção da dramaturgia de Graphic.

Dessa vez o Aguiar pulou junto no barco e criou os desenhos do Homem-Sombra, personagem do personagem Artie.

 

Passagem de tempo. Agora no voo CO 1407 para San Jose, assento 14 A. Não existe fila 13. Da 12 pula direto para a 14. Isso quer dizer que eu estou numa falsa fila 13? 

 

Mais do que nunca, a Vigor Mortis namorava a arte sequencial. Não apenas um flerte, mas malhos pesados. A linguagem de quadrinhos ficou associada intimamente à linha estética da companhia, e mesmo trabalhos que não faziam referência direta a essa linguagem – como em Morgue Story e Graphic – não deixavam de apresentar uma certa safadeza e inconsequência mais típicas de revistas em quadrinhos do que dos palcos.

A assumida canastrice do cafetão Freddy Duran e da estrela pornô Ursula Undress da peça Snuff Games.

O universo quase “scoobydoobiano” da policial Wanda Wozniak da peça Garotas Vampiras Nunca Bebem Vinho.

Esses seres – criados inicialmente por mim e pelo elenco – tinham vida possível além dos palcos. Eles surgiram a partir de uma lógica que pode ser mais bem analisada por Scott Mcloud do que por Hans-Thies Lehmann. Em um universo que está mais para Ed Wood do que para Godard. Um texto que está mais para Alan Moore do que para Roland Barthes.

É por isso que a vida definitiva desses personagens estava esperando para ser gerada pelo José e pelo DW.

 

Corta para: apartamento da Fell Street número 847 em San Francisco, California. 20:49. A Vigor Mortis se prepara para sua primeira parceria com a companhia californiana Thrillpeddlers. Coisas interessantes estão por vir com essa parceria. 

 

A efemeridade da apresentação teatral se destrói aqui. Essa nova perenidade que a Vigor Mortis estabelece só existe por conta de parcerias de criação. Não apenas com o José e o DW, mas com os intérpretes: Mariana Zanette, Rafaella Marques, Michelle Pucci, Carolina Fauquemont, Wagner Correa, Anderson Faganello e o assustador Leandro Daniel Colombo. Isso sem falar na colaboração de todos os anônimos (alguns nem tão anônimos assim) não ficcionais que, além de seus traços peculiares, inspiraram a criação das idiossincrasias desses personagens.

P.S.: Corta para: Texto ficou “na gaveta” por um mês. Agora, revisado, em Curitiba, e prestes a ser enviado para o email do José. É bom estar de volta. Novas criaturas foram criadas.

As histórias incluídas aqui podem ser vistas de duas formas: como um complemento às montagens da Vigor Mortis, mas, principalmente, como uma reunião de criaturas pertencentes a um universo que é muito caro a todos os envolvidos neste processo de criação em camadas. Se você está lendo este texto, provavelmente é porque você também gosta deste universo “pop-tosco” da Vigor Mortis. Então, vire para a próxima página e aplique a camada final de criação.

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